Quem será?

September 6th, 2008

Ele a observava todos os dias do mesmo lugar. Ela se sentia observada, não sabia se isso a incomodava ou não, tinha mesmo que estar ali, tinha que se adaptar à isso. Toda manhã ele acordava bem, sabia que iria vê-la, iriam conversar? Trocar olhares talvez? Era pouco provável, mas ela existia, isso era o bastante. Aquilo a intrigava, havia mesmo alguém a observando ou era só impressão? Mas só sentia aquela sensação ali, durante as aulas, às vezes era uma sensação tão forte que a desconcentrava totalmente. Era bom ou ruim?

O únco motivo de ele estar ali agora era ela, quase uma obssessão, tinha certeza que em outro lugar, no mundo todo até, não havia ninguém como ela, tão bela, tão singular, tão única que se fazia distante de qualquer adjetivo ou qualquer palavra que pudesse descreve-la, ela simplesmente existia e era completa nessa existência, isso lhe tirava o ar, uma aproximação seria impossível, ele iria gaguejar e suar e pareceria mais estranho do que já é. Enquanto pensava isso a desenhava em sua mesa e óbvio, não parava de olhar pra ela, e só agora percebia que ela também o olhava bastante, um olhar curioso, de quem quer a todo custo desvendar algo, ele ficou nervoso, como há tempos não ficava. A aula acabou, e ele pôde fugir. Que droga! Havia assinado o desenho! Como se ela já não soubesse quem havia desenhado.

Ela deixou todo mundo da sala sair para então se aproximar da mesa que era do rapaz que a observava, agora ela sabia de quem era os olhos que a acompanhavam sempre. Era um cara estranho com certeza, parecia ser muito tímido e em especial nessa aula, não parava de olhar pra ela e rabiscava na mesa, o que ele tanto fazia? Se aproximou e viu um desenho do rosto de uma garota, não demorou mais que alguns segundos para perceber que aquele perfil era seu. Era um dos desenhos mais bonitos que ela já tinha visto em toda a sua vida e era seu e ela adorava desenhos. Teve vontade de levar a mesa pra casa, era lindo, aquilo a deixou contente e com medo ao mesmo tempo, se eles ao menos se conhecessem, melhor ir embora, já estava na hora.

No outro dia  ele não foi à aula e sua cadeira permanecia vazia, ela queria vê-lo, falar com ele, mas ele não apareceu, mas não era de se estranhar que isso acontecesse, seu ato extremo de coragem foi assunar o desenho, ou fez isso por costume, desleixo? Queria mostrar o desenho às suas amigas, não via a hora daquele povo todo sair de lá. Quando a sala estava vazia, ela e mais algumas amigas se dirigiam à mesa onde havia sido feito o desenho. Chegando lá, curiosamente havia um poema ao lado do desenho, que dizia o seguinte:

Quem é ela? Quem será?

Tão bela e tão suave quanto música,

Musa única.

Talvez seja sonho

Aparece de manhã

Talvez seja real como a maçã de seu rosto

Que gosto terá seu beijo?

Quem saciará seu desejo?

Quem ira conhecê-la melhor?

Só de saber que ela existe

Já não me sinto tão só.


Quem havia escrito aquilo? A letra não era do rapaz do desenho e nem poderia, ele havia faltado à aula, quem mais poderia ter escrito aquilo? Era belo e desajeitado, mas fazia bem à ela, quem seria esse novo mistério, quem será?

Rua cinza

August 8th, 2008

Já é hora de voltar pra casa, o dia passou tão depressa, que ela nem percebeu, fez tantas coisas e ao mesmo tempo nada, tão empenhada naquilo que…será que faz mesmo sentido? Será que alguma dia fez realmente algum sentido? Ela anda pelas ruas como um zumbi, como um corpo vazio que apenas existe, assim, sem nenhuma explicação, apenas a sombra daquela que um dia foi o ser mais vivo, e que agora comete as mesmas ações que antes a faziam vomitar.

Ela chega em casa, a mesma casa sozinha de sempre, a mesma comida morta sobre a mesa, ela se pergunta qual das vacas está pior. Nenhuma ligação, nem um novo e-mail, nem um novo convite. Tanta realização profissional e nenhum vigor, ela que já lutou tanto, e agora nada pra lhe satisfazer, nehuma alma à qual ela possa se dedicar, nenhuma alma que possa se dedicar à ela.

Ela ainda acredita em Deus, mas ela tem certeza que a recíproca não é verdadeira e mesmo assim todas as noites eles conversam, ela ri, as pessoas diriam que isso seria no mínimo esquizofrênia.

A única coisa que a conforta são as estranhas cartas que sempre aparecem na sua porta, que sempre lhe dizem coisas boas, coisas em que ela se segura mesmo com todo o medo que isso lhe provoca. Ela não sabe de quem são esses textos que religiosamente toda manhã a acordam, alguém que a conhece bem, mas quem, se só há solidão há tanto tempo?

Ela tem vontade de mudar tudo, cortar o cabelo, vestir roupas novas, dar um belo soco no seu chefe e começar uma vida nova, mas tudo o que ela vê pela janela são nuvens pesadas e uma rua cinza e é nisso que tudo teima em se transformar.

*Baseado em: Grey Street(Dave Matthews)

Everyday

August 3rd, 2008

Tudo o que você precisa é amor, ame tudo todos os dias”. E onde está ele? Por onde começar? É simples, o amor é simples, não está em nenhuma teoria marxista, nenhum dogma católico e nenhum mantra budista, o sentimento está nos gestos e os gestos estão livres dos dicionários, gestos são sinceros, o corpo é.

Como diria o poeta: “ser bom não é dar abraço e bom-dia”, vai mais além, o bem está contido no amor e esse está contido nas pessoas, por incrível que pareça. As coisas simples ainda prevalecem.

O amor entende calado, o amor perde a vontade, o amor faz dormir, o amor enxuga lágrimas, o amor cura resfriado e síndrome do pânico, o amor abdica.

É ver as coisas pelo lado bom.

É outro mundo, outra realidade

July 28th, 2008

É outro mundo cara, outra realidade, tinha que lembrar sempre disso, não adiantava, não havia nada a fazer, a vida era assim mesmo, tinha que se conformar, as pessoas eram assim, diferentes dele, pelo menos as pessoas dessa margem da realidade eram. A raiva passava lentamente, mas não o que tinha em mente, é outro mundo, outra realidade, era assim para todos, havia de ser para ele também, afinal, não era melhor do que ninguém, o ser humano era só e assim seria, óbvio, simples, prático, sem lugar para suas lamentações, suas lamúrias, suas inquietações, afinal isso passa, sempre passa, fraquezas não são aceitáveis, muito menos dependência.

É outro mundo cara, outra realidade, nada sobre coisas simples, afinal coisas simples são chatas, palavras costumavam ter força, energia, mas não agora, é outro mundo, outra realidade, as pessoas tinham cada vez mais pressa de se chegar aonde meu deus? Deus, engraçado, seu deus era só, por que ele também não havia de ser? Logo ele, lento, simples num lugar de relógios de ouro, carros importados, até o sexo era meio assim, ostensivo, diziam que era evolução e isso nunca soou tão irônico quanto agora, até o amor, onde diabos havia se metido? Tinha vergonha? Aparecia de formas diferentes, é outro mundo cara, outra realidade.

Dormiu na praça, foda-se o que vão pensar, quem vai ligar, não muitas pessoas, isso era certo, tão certo de que amanhã seria outro dia, e haveria mudanças, isso sim, era preciso, afinal, é outro mundo cara, outra realidade.

O espaço entre

July 26th, 2008

Aquilo havia perdido o controle, não era novidade, mais cedo ou mais tarde, a insônia voltaria. Não entendia o motivo, a nova cidade parecia ser a cura, era tão bonita, tão diferente, mas tudo bem. A TV e o computador já haviam perdido a graça, na madrugada o que o acompanhava era um blues baixinho no velho som e a garrafa de uísque, sempre pela metade. Sentava-se em sua poltrona que agora se voltava pra grande janela de vidro do seu apartamento, no oitavo andar, dali era possível ver tudo o que se passava lá fora, não que acontecessem muitas coisas, mas uma boa dose de blues e uísque é quase como um milagre.

Em frente ao seu prédio havia um condomínio alto com janelas grandes, o que permitia se ver qualquer coisa que se passasse ali, nada fora do normal, velhos dormindo em frente à televisão, casais transando, nerds escrevendo em blogs inutéis, nada de engraçado, nenhum suicídio (nem o seu), nada.

Uma certa noite viu que uma das luzes de um ap estava acesa, o que não era de costume, era uma luz branca, fraca, era o sexto ou sétimo andar, não importava, mas aquilo que ele via sim, fazia diferença, era uma moça magra, um pouco alta, longos cabelos pretos, que se encostava no vidro da janela e olhava pra baixo. “Ela quer se matar? Ela está triste? Por que eu nunca havia reparado essa moça, já que moramos perto? Como será o nome dela? No que ela tanto pensa?” Não viu o tempo passar mas quando deu por si, o dia já estava amanhecendo e a moça não estava mais lá. Continuou assim por vários dias, a moça sempre aparecendo e lhe fazendo companhia sem nem saber; “poderia ser uma alma? claro que não! Ela também o observava? Era óbvio que não também!” As noites passavam e ele só pensava na moça que era tão agradável, que sempre aceitava mais uma dose, que adorava as músicas que ele mais gostava de ouvir.

Uma certa madrugada ela não apareceu mais na janela, mas a insônia, essa sim, era irritantemente presente.

Ainda há blues.

Coisas que vêm e vão

April 22nd, 2008

Ando por ruas que já conheço de cor

Novos passos e um velho jeito de andar.



Coisas complicadas demais são essênciais

Pra que cores surreiais fiquem guardadas.



-Só aquele que sente o sol, verá.


A cada esquina uma outra idéia passa.


Esqueceram o siginificado de nuvem,

Agora chamam fumaça.

É um jeito meio burro de ver a vida

Já perdemos tempo demais

Catalogando coisas sem sentido.


Ela tem um belo sorriso e um belo decote

Mas está de mãos dadas

Eu tô mais pra macaco velho

Que pra cobra traiçoeira que dá bote

Cansei de me chamar Lancelot

Prefiro o nome Arthur

E ser o primeiro a ver o corpo nu.


Desculpa se não pareço atento

Desculpa se eu sou um pouco torto

É que joguei minhas poesias ao vento

E agora tenho um amor novo

Me esperando a cada porto.


Ela me ligou ontem no meio da madrugada,

Foram poucas palavras,

Mas fiquei feliz.

Na Natureza Selvagem

April 16th, 2008

“Há um prazer nas florestas desconhecidas; um entusiasmo na costa solitária: uma sociedade onde ninguém penetra, pelo mar profundo e música em seu rugir: amo, não menos o homem, mas mais a natureza…”- Lord Byron

Assim começa Na Natureza Selvagem(Into the wild), filme baseado no livro de Jon Krakauer, que conta a história real de Cristopher Johnson, interpretado por Emile Hirsch(Um show de vizinha, Speed Racer), um típico jovem americano, que após sua formatura, decide deixar toda a sua vida para trás , em busca de auto-conhecimento e real felicidade, decide então ir morar sozinho no Alaska. No caminho, Chris passa por diversas fases de aprendizado atráves de experiências no mínimo inusitadas. Sua jornada transporta o telespectador a realmente questionar o que na verdade deve ser valorizado, para que se possa viver bem.

O filme é bem rico em belos lugares e dialógos interessantes em diversos aspectos, sem parecer denso ou porra-louca, como de costume em melodramas mela-cueca. Quem assina a direção é nada mais nada menos que Sean Penn, que dispensa apresentações, a direção musical por Eddie Vedder. No elenco ainta temos nomes como William Hurt e a jovem Kristen Stewart.

Bom, assistam e divirtam-se, e não se assustem se eu sumir do mapa, o filme realmente mexeu comigo.

“É preciso tratar as coisas pelo seu verdadeiro nome”.

Quatro elementos

April 4th, 2008

Existiam quatro amigos, eram inseparáveis, sempre procuravam atividades em que todos pudesse estar engajados. Um dia resolveram ver um filme na casa de um deles, esse momento foi crucial pra vida de todos, Um só pensava no futuro, o Outro vivia cada cena profundamente, tinha Aquele que se perdia na sua própria mente que há pouco havia se tornado um labirinto, o mais Afastado dali passeava entre dois mundos.

O tempo passou e cada um seguiu um rumo nem tanto diferente do que haviam imaginado. Um se tornou um rockstar, o Outro mergulhou em projetos internos, Aquele que se perdia finalmente conseguiu escapar de sua própria condição e o mais Afastado dali, pôs os pés em todos os mundos que conseguiu encontrar.

Crônica de pobre

March 28th, 2008

Ouvi em uma canção, alguém dizer que não há nada mais sozinho que um elevador vazio. Começo a discordar, acho que se o autor da frase andasse um pouco mais de ônibus, perceberia que mais sozinho que um elevador vazio, é um grande ônibus lotado.

Na volta pra casa, na ida ao trabalho, à escola; esses horários são donos de uma solidão implacável, explico eu: são nesses momentos em que as pessoas se entregam à qualquer idéia que possa chegar de mansinho, claro que existem aquelas pessoas que apenas seguem, mas na maioria das vezes, a mente corre mais que a condução, que a condição. E essa solidão é uma solidão bem trabalhada, porque é vazio que se sente em conjunto, cada um com o seu formando quase um vácuo ali mesmo.

Mas num ônibus isso é quase preciso, é o local mais “aconchegante”(uma lotação, aconchegante, sei) para as idéias raras, imperfeitas se tornarem harmoniosas, plausíveis. Seja na lembrança de momentos eternos, nas decisões tomadas, bons pensamentos nascem ali, entre uma parada e outra. Os viajantes lançam seus olhares pra fora da janela, em busca de algo que complete, de algo que se torne realmente diferente, de algo que mude.

Ora, se há um modo mais interessante de se viajar, me avisem que eu deixo o busão nosso de cada dia e vou atrás de novas emoções.

P.S: Dedicado à Karoline Alves, a gente sempre inicia nossas coversas falando de lotações. (Risos)

Virou fumaça

March 26th, 2008

Perto demais. Fotos, textos e cartas, lembranças , lágrimas e sorrisos, gestos e abismos, cortes eternos, sons eternos. Tudo num só lugar. Álcool: combustível pra fazer queimar tudo aquilo dentro e fora do recipiente, dentro e fora do corpo. Erro: perto demais das chamas, a pele toda chora, os olhos não foram os únicos afetados por aquilo que inexoravelmente se tornava cinzas. A essência se tornou fumaça e entrou pelas narinas até chegar na alma. Agora já não existe mais e mesmo assim, faz parte.