Aug 26

 

Ela caiu. Deslizou pela superfície macia e foi parar ao chão depois de uma queda de aproximadamente um metro e setenta. Ele não sabia explicar aquilo. O que teria causado isso? Que motivos levaram-na a cair? Talvez a resposta estivesse em seus pensamentos mais obscuros, os que ele mesmo negava.

Tudo acabou sedimentando a tal ponto que ela caiu: as desilusões, as mágoas, todas foram se acumulando e assim ela se deu a cair. O filme triste a que ele assistiu também fora responsável. Sem contar a solidão, a saudade, o medo, a amargura, a insegurança. Porém nunca lhe ocorrera que ela viesse a cair novamente, não agora que ele jurava de “pé junto” que estava bem. Seria possível que ele até soubesse o real motivo de tudo aquilo, mas não admitiria jamais, nem para si mesmo.

Houve um tempo em que ela caia todos os dias, em certas ocasiões mais de uma vez. Há muito cansou de vê-la. Não havia motivo para espanto - acabou percebendo - mais cedo ou mais tarde ela teria que ir ao chão de novo.

Acabou tentando lembrar os meios que a faziam cair com freqüência. Começou pelo óbvio, as sensações que lhe incomodavam. A aflição, o desconforto, o desprazer, até mesmo a dúvida. Muitas músicas também a faziam cair – recordou-se. Cenas nos jornais, nas ruas, no colégio. Foram vários os momentos que ele a viu, é impossível citar todos.

Antes de dormir pensou mais um pouco, lembrou que também ela caíra em momentos alegres. Sim. Por que só agora ele havia notado? Ela só pode ter caído por isso: alegria. Quando constatou que era verdade viu seus olhos brilhando de felicidade no espelho. Foi então que ela caiu. Deslizou pela superfície macia e foi parar ao chão depois de uma queda de aproximadamente um metro e setenta. Ele, um simples garoto. Ela, uma não mais triste e amarga lágrima.


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Jul 26

O Carteiro é um quarentão, homem gordo de baixa estatura sem compaixão por si próprio, utiliza a profissão para alimentar seu maior prazer: entrar na intimidade das pessoas. Abre sim todas as correspondências que lhe causam comichão de curiosidade. Ninguém sabe o que traz tanto conforto para ele saber sobre o que acontece na vida das pessoas cujas cartas ele entrega. O Carteiro não é tão diferente assim das demais pessoas que o cercam, ele apenas tem a vantagem de ter o destino de alguém nas mãos, ali em alguma daquelas cartas.

Criança ainda foi criado por Dona Marluci, empregada da casa já há muitos anos. O pai não suportava o fato de a esposa ter falecido no parto e passou a culpar o filho de ser o assassino da mãe. A empregada foi a responsável pela educação do menino. Batizou-o de Sebastião, o tabelião conhecia o pai do bebê e aconselhou Dona Marluci que acrescentasse José e assim permaneceu: José Sebastião Cavalcante Filho, o Tião, como chamava a empregada.

A primeira carta que o Carteiro violou foi por acaso, quando este tinha nove anos de idade. Dona Marluci que já contava com idade avançada pediu para Tião entregar um envelope na casa de Seu Assis, um velho que vez por outra visitava a empregada. O menino respeitava muito sua mãe de criação, por isso nunca deixou de fazer por ela alguns favores. Chegando a casa tocou a campainha e ninguém apareceu. Decidiu ir ao centro da cidade onde Seu Assis era dono de uma venda. Quando passou em frente à sorveteria encontrou Maurinho, seu melhor amigo. Tião era quase um ano mais novo que o amigo, por isso teve que aceitar quando Maurinho puxou a carta e correu. O Carteiro estava acostumado com essas brincadeiras.

- Devolve Maurinho, por favor – pediu Sebastião.

- O que é isso, cartinha de amor? – perguntou o amigo enquanto abria o envelope.

- Carta de quê?Devolve, devolve.Tia Marluci pediu para eu entregar, é para o Seu Assis.

Maurinho pôs-se a ler: “Meu amor, adorei o nosso primeiro…”.

Tião arrancou a carta das mãos do amigo e enfiou-a no bolso da calça. Os dois permaneceram em silêncio por um tempo. Sebastião não entendeu o que significava aquela carta, a própria Dona Marluci havia escrito, ele se viu no direito de ler o que nela continha.

“Meu amor, adorei o nosso primeiro encontro, em todas as visitas que me fez eu aguardei ansiosa o seu convite para sairmos. Agora sei que meu sentimento por você não vem apenas de minha parte. Adorei nosso passeio no parque, senti-me quarenta anos mais jovem. O desejo de viver mais cem anos floresceu graças a você, meu amor. É preciso que sejamos cautelosos discretos, não quero me precipitar com você. Não temos mais idade para aventuras, não posso simplesmente abandonar meu patrão e Bentinho, o menino que criei como o filho que nunca tive. Peço a você que tenha paciência e seja compreensivo, vamos nos encontrar quantas vezes mais você quiser. E se o amor exigir que eu largue tudo e vá viver ao seu lado, eu sou capaz e audaz de fazer. Um beijo da sua amada Marluci”.

Era a primeira vez que Sebastião desobedeceria a sua mãe de criação. Maurinho o acompanhou à venda de Seu Assis. Os dois passaram lentamente em frente à porta do estabelecimento. Podia-se ver o ódio nos olhos do Carteiro quando este viu o velho que seduzira a mulher que lhe criou, que lhe ensinou a andar de bicicleta, que lhe contou as histórias da Mula-sem-cabeça, do Saci Pererê, da Caipora e que lhe mostrou como fazer para a bola de meia não rasgar tão facilmente.

Chegou a casa e o pai não estava como sempre.Deu um beijo em Marluci e foi brincar com Maurinho no quintal.

- Entregou o envelope, Tião? – gritou a empregada de dentro da cozinha.

- Entreguei.

À noite o Carteiro leu mais uma vez a carta deitado em sua cama. Rasgou-a em muitos pedaços, jogou-a em uma lata de leite em pó vazia e ateou fogo nos papeizinhos.

 

*da série: O Carteiro

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Jun 26


As luzes, nessa época do ano, costumam variar entre azul, amarelo, verde e vermelho. Os meninos? Esses são muitos, em geral andam sempre acompanhados: mãe, pai, irmão, irmã, babá. Apenas aquele cujos olhos cruzaram os meus não parecia ter acompanhante. Um negrinho desses que se encontra em sinais de trânsito. Calça um tanto desbotada, camisa e chinelos velhos. Devia ter seus dez ou onze anos de idade. Caminhava entre as pessoas como quem não é notado, mas não totalmente. Eu o fitava.
Acredito que ele não estava ali para pedir esmolas ou até mesmo roubar; furtar um objeto qualquer de uma loja. Parecia assustado e, em outros momentos, deslumbrado, principalmente após ter encontrado o que, suponho, estava a procurar: cercado de várias crianças, lá estava o Papai Noel do shopping. O negrinho permaneceu pelo menos dez minutos imóvel.
O funcionário vestido naquela roupa vermelha até que sabia como tratar as crianças, uma vez que todas elas eram de classe média e alta. Por alguns instantes, outra pessoa notou a presença do negrinho, o próprio Papai Noel do shopping. Vi a dor nos olhos do velho que se compadeceu com o menino, fazendo-me sentir o mesmo. Porém o velho e eu éramos incapazes de uma aproximação direta do menino. Cada um impossibilitado pelo preconceito que criou.

p.s: sem tempo pra me dedicar e/ou escrever, grato!

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Mar 19

Abre os olhos e vê um clarão de luz entrar pela fresta embaixo da porta do seu quarto. O Assustado percebe que alguém caminha pelo corredor. Ele pega o celular e começa a discar para a polícia, mas desiste e espera um pouco para ter certeza que há mesmo um ladrão em casa. O som dos passos chega à cozinha. O suposto ladrão abre a geladeira.

- Além de roubar minhas coisas, ele quer comer minha comida? Eu não posso permitir isso! – pensou o Assustado.

Dentro do quarto ele encontra um grampeador preto no guarda-roupa e segura o objeto como quem segura uma arma de fogo. Aproxima-se da porta lentamente e com muito cuidado gira a maçaneta. Deixa abertos apenas dois centímetros, o suficiente para ver onde o ladrão está agora.

A luz da sala foi acesa. O Assustado se estende no chão e arrasta-se até a cozinha. Verifica o que o intruso comeu quando abriu a geladeira:

- Putz! Uma fatia de pizza, o que sobrou do bolo de ontem e provavelmente ele está com a tigela das uvas nesse momento.

O Assustado se prepara para ir a sala dar o flagrante no ladrão que acaba de ligar a televisão. Ele segura o grampeador com firmeza, abre a porta da cozinha silenciosamente, anda com cautela até o fim do corredor. Estica o pescoço a fim de ver o ladrão que está sentado no sofá. Conta de um a três, fecha os olhos, pula no meio da sala e grita em plenos pulmões:

- Pare, se não eu atiro!

Dona Socorro quase se engasga com as uvas que estava comendo.

- Diego Leonardo, você enlouqueceu? Quer me matar com um susto desses?

- Eu só tava brincando mãe. Não consigo dormir.

- É sério? Agora você vai dormir nem que seja à força. Vamos, passe para o seu quarto!

- Ai! Ai! A senhora vai arrancar minha orelha, puxando assim.

A mãe do Assustado o tranca no quarto. Castigo por um mês.

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