Jan 26

Eu sou um “coisista”. Passei, depois de tanta cobrança, a não me considerar bom nas coisas que faço. Em geral sou mesmo um bom “coisista” – sujeitinho que tenta fazer de tudo. Muita gente está no meu pé discutindo comigo essa questão da humildade e da modéstia. Humildade é uma coisa que eu posso até ter, sabe, em uma zona morta do meu cérebro. Já modéstia não, sinto muito, não sou nada modesto, afinal nunca ganhei nada sendo assim e se perdi, foi algo que não fez diferença alguma em minha vida.

Acredito que não saberia viver em um lugar parado, um lugar rotineiro, monótono. Sou da cidade, sempre fui. Gosto de prédios, carros, motos, poluição sonora. Sou citadino ao extremo. Gosto de sair da aula por volta das nove e uns quebrados da noite apenas pra sentir o vazio das ruas depois de um dia inteiro de funcionamento das lojas, das barracas, dos frigoríficos, das bancas de revista, dos colégios. Gosto de ouvir o aglomerado de sons diferentes que se passa no meio do trânsito. Gosto de ir tomar café às pressas pra voltar à aula e, se a vontade for maior do que a força em minhas pernas, gosto de passar em um sebo de livros usados e sentir o cheiro da poeira e do ácaro daquelas folhas que estão ali há anos, mesmo que isso me custe uma semana ou duas com crise alérgica.

Eu me apaixono toda semana, mudo meu sobrenome todos os dias. Tenho um sério problema de memória. É muito comum, pelo menos no meu caso, acordar pela manhã e não saber que dia é.

Desde quando passei a observar o que acontece ao meu redor, de perceber as situações inusitadas do cotidiano, meus sentidos parecem mais aguçados. Consigo descrever o que vejo com muito mais facilidade. Posso colocar no papel acontecimentos em minha vida e transformá-los em situações universais, problemas que afetam todo e qualquer tipo de pessoa. A cidade parecer ter notado o meu avanço. Arriscando um tom poético eu diria que a cidade parece corresponder ao que sinto. Nunca consegui explicar todas às vezes que me pego com baixo-astral, com baixa auto-estima, ou até mesmo infeliz e por coincidência está chovendo. Ou quando recebo uma notícia boa, quando me alegro por um amigo que ligou pra dar um sinal de vida e lá está o tempo limpo, perfeito, o céu, as nuvens, tudo em harmonia com meu corpo e com minha mente.

Não são raras também as vezes que as estrelas sumiram à noite quando não consegui me concentrar para escrever ou compor. Ultimamente tenho me encontrado em paz de espírito (se é que isso existe), tenho aproveitado os momentos bons e os momentos certos, mesmo que durem pouco. E vocês notaram aquele dia que fez um calor danado? Só pode ser esse sol, cada vez mais forte.

06.06.06

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Nov 26

Sebastião percebe que o vento não está mais soprando. Ele se ajoelha:

- Quando chegar o verão, eu vou te buscar em casa. Vamos passear no parque. Compro para você um sorvete daqueles que aprecia e peço para o homem com o violão me deixar tocar a sua música. A tarde será perfeita.

O vento agora voltou e parece estar mais forte que o comum. Sebastião deixa as flores em cima do túmulo, desiste dos planos e passa os olhos rapidamente na escritura da lápide: “Aqui jaz Sandra Borges de Medeiro, esposa amada e filha querida”. Ele deixa as lembranças de lado e se põe em pé novamente. Caminha pelo cemitério buscando um sentido para a própria vida, agora que a noiva não está mais presente e nunca mais estará. Ele se vê sozinho, sem família e perdido.

Ele sai do cemitério e, mesmo sem saber o que faria naquele momento, sobe no primeiro ônibus que vê passando. Dentro do veículo ele passa a escrever a primeira carta de sua vida, nunca havia escrito uma antes durante seus vinte e três anos:

“O engraçado (ou o inexplicável) é que eu não lembro de ver a cidade assim tão triste. A chuva, que normalmente não cai, parece tentar dizer a todos que alguém dentro de um ônibus, escrevendo, sofre por uma pessoa que conhece há tão pouco tempo. Isso me faz recordar de um filme qualquer, ou então seria tão único que só se vê em filme mesmo.” - Ele tenta se equilibrar no ônibus e escrever meio sem jeito. “Parece que eu te conheço há anos, que eu te adoro desde sempre. Parece que eu te amo desde que eu nasci… Você merece o mundo e eu só tenho algumas folhas de papel em branco, uma caneta e um lápis. Nem mesmo uma borracha eu tenho.”

Sebastião olha as calçadas, as esquinas, os bares. É hora de descer do ônibus, mesmo sem poder enviar a carta para quem gostaria.

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Jun 26


As luzes, nessa época do ano, costumam variar entre azul, amarelo, verde e vermelho. Os meninos? Esses são muitos, em geral andam sempre acompanhados: mãe, pai, irmão, irmã, babá. Apenas aquele cujos olhos cruzaram os meus não parecia ter acompanhante. Um negrinho desses que se encontra em sinais de trânsito. Calça um tanto desbotada, camisa e chinelos velhos. Devia ter seus dez ou onze anos de idade. Caminhava entre as pessoas como quem não é notado, mas não totalmente. Eu o fitava.
Acredito que ele não estava ali para pedir esmolas ou até mesmo roubar; furtar um objeto qualquer de uma loja. Parecia assustado e, em outros momentos, deslumbrado, principalmente após ter encontrado o que, suponho, estava a procurar: cercado de várias crianças, lá estava o Papai Noel do shopping. O negrinho permaneceu pelo menos dez minutos imóvel.
O funcionário vestido naquela roupa vermelha até que sabia como tratar as crianças, uma vez que todas elas eram de classe média e alta. Por alguns instantes, outra pessoa notou a presença do negrinho, o próprio Papai Noel do shopping. Vi a dor nos olhos do velho que se compadeceu com o menino, fazendo-me sentir o mesmo. Porém o velho e eu éramos incapazes de uma aproximação direta do menino. Cada um impossibilitado pelo preconceito que criou.

p.s: sem tempo pra me dedicar e/ou escrever, grato!

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