leticia’s a victim

Peter Pan

March 19, 2008 2 comments

Há tempos tenho deixado de brincar com as bonecas de pano e de plástico, com o banco imobiliário e com os patins. O jogo da vida em que eu, literalmente esqueci de crescer. Mal sabia que durante a vida eu não ia querer um monte de coisas. E se soubesse disso, talvez não achasse tão ruim engolir sem vontade a comida da minha mãe enquanto pequena. No meio dos meus lençóis acabou de surgir lembranças de dias perfeitos. Lembrei-me do passado que infelizmente não poderei voltar atrás e que luto para não cair no esquecimento. Apenas resgatei a lembrança da minha infância, aquela que eu fui extremamente feliz. Recordo-me de quando ia à casa de meu pai aos finais de semana. Sempre adormecia no cantinho do sofá e ele, tão cuidadoso, me embalava nos braços, depois me colocava com o maior cuidado na cama, dava um beijo de boa noite e fechava a porta. O dia que me levara para ver meu irmão no dia em que nasceu. As histórias de improviso, contadas com vista para uma janela que se encontrava justamente com a Lua. Éramos eu e meu irmão, apenas ouvindo sem saber se fazia sentido ou não, mas sabendo que aquele momento seria único.

Passado algum tempo, descobri que o mundo não é cor-de-rosa, assim como pintei um dia. Depois que a inocência se perde, a idade adquirida trás de brinde experiência. Então, as idéias se tornarão mais heterogêneas do que nunca. Não preciso falar que já quebrei a cara vezes incontáveis, mas nem por isso eu consegui me curar da síndrome do Peter Pan. Essa mesmo, que consegue me provar o quanto é incrível ser criança – ou pelo menos eternizar a alma infantil –, embora impossível com 17 anos incompletos, e uma vontade enorme de me manter sempre no mesmo estado de espírito, de liberdade, da própria inocência que perco a cada dia em que envelheço e cresço contra a minha vontade. Queria pra sempre me conservar criança, mas o meu desejo abstrato unido ao tempo teima em me contrariar. Entre tantas tentativas frustradas, estará a minha. Talvez por isso mesmo fiz catequismo por conveniência, católica por aparência, atéia por desistência.

Ser criança para cativar com apenas um sorriso, abraçar um amigo. Enxergar sempre flores em vez de espinhos, e ter uma mania de carregar a certeza que a vida é mais fácil do que ela parecer ser. É não ter malícia, não mentir, muito menos fingir. É usar hipoglós, dar a mão pra atravessar a rua, ter pesadelos e ir correr chorando pra cama dos pais. Ser criança pra comer chocolate sem ter culpa nem espinhas, é também ter hora para dormir, para comer, para tomar banho. Sonhar com filminhos da Disney agarrado ao ursinho de pelúcia. É não viver olhando para frente e aproveitar o presente. Ficar “de mal” do coleguinha que empurrou escada abaixo e no outro dia já ser o melhor amigo dele de novo. Ser criança é bem mais que passar aulas desenhando, brincando com massinha de modelar. É contar as estrelas do céu. Encontrar milhões de motivos pra sorrir quando se quer chorar.

crônica @ 12:30 am