Um artigo que demorou alguns dias para ficar pronto, mas está aí. O blog está voltando aos poucos.
Barba Uonderias[1]
1 - INTRODUÇÃO
A internet possibilita um fluxo rápido e contínuo de informação. Ao mesmo tempo em que uma informação chega ao destino numa fração de segundos, essa mesma informação pode viajar o mundo inteiro e ir ao encontro de um grande número de outros destinos. Para facilitar, simplificar e agilizar a comunicação, foi necessário o uso de uma linguagem que se adequasse às necessidades da internet. O internetês surgiu com a finalidade de transformar a comunicação, fazendo-a de maneira taquigráfica[2], fonética[3] e visual[4].
Simplificações, combinações de caracteres, símbolos gráficos e recursos de imagem são características utilizadas, em grande parte, pelos jovens. Por exemplo, as expressões que utilizam caracteres e símbolos para demonstrar felicidade, alegria, raiva, tristeza e outras sensações foram criadas para diferenciar o sentimento que cada mensagem expressa. Nasceu assim o Emoticon. Outra forma de expressão é o uso da letra maiúscula, indicando descontrole emocional, raiva, exaltação ou grito. Todavia é de uso restrito, segundo a Netiqueta, a etiqueta que se recomenda observar na internet, ou seja, um conjunto de recomendações para evitar mal-entendidos em comunicações virtuais. Por isso deve ser utilizada com moderação para evitar conflitos com outros internautas.
Com os grupos e círculos de amizade ou convivência na internet, foram surgindo os dialetos ou expressões próprios de cada um deles. O Leet, forma de escrever o alfabeto latino usando outros símbolos em lugar das letras, como os números. Há também o Miguxês, forma de se expressar que imita a linguagem infantil, sendo muito utilizado entre adolescentes. Já o Tiopês foi criado apenas como uma forma de escrever errado para criticar ou ironizar as pessoas que não escrevem de maneira correta ou não digitam as palavras corretamente.
Será evidenciado neste artigo o seguinte quesito:
Mostrar se é possível que a linguagem da internet prejudique os alunos na hora
de uma produção escolar como numa redação.
Apontar medidas a serem tomadas pelos jovens usuários da internet para que se policiem no uso da escrita via internet.
2 – RESUMO DA LITERATURA
Há um enorme número de artigos que estudam o uso de abreviações de palavras pelos jovens usuários da internet na elaboração de redações. Esse uso prejudica o aluno na hora da correção. Este artigo toma por base, parte da fundamentação de outro artigo, “Abreviaturas: simplificação ou complexidade da escrita?” de Renata Ferreira Costa (Revista Eletrônica do Arquivo do Estado, edição nº 15 Ano 02, outubro de 2006), Mestranda da área de Filologia e Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O artigo da professora mostra que as abreviaturas eram utilizadas desde a época romana e foram mais freqüentes no período medieval. Assim sendo, não seria uma novidade trazida pela internet o uso de palavras abreviadas.
A origem das abreviaturas se encontra em um tipo de escrita muito praticada na Roma antiga, a taquigrafia. Do grego tachvs (rápido) e graphein (escrever), é um tipo de escrita desenvolvida para ser tão rápida quanto a fala. Hoje, com o advento da internet, nos deparamos com um novo tipo de linguagem, o internetês: conjunto de abreviações de sílabas e simplificações de palavras que leva em conta a pronúncia e a eliminação de acentos (MARCONATO, 2006, p. 22).
Essa “customização” do português vem sendo criticada e há uma tentativa de eliminação desse uso pelos “lingüistas puristas”. Já outros estudiosos acreditam que se o jovem possuir uma base estudantil sólida e souber se policiar, não será prejudicado.
Só haverá comunicação se houver entendimento ou assimilação por parte do receptor. Pelo fato de cada situação de comunicação exigir um código adequado, ou seja, uma linguagem especifica, temos assim o conceito de linguagem: “linguagem é um sistema de signos utilizados para estabelecer uma comunicação”.
Para haver comunicação, é preciso utilizar elementos fundamentais:
O emissor, que transmite a mensagem
O receptor, que que recebe a mensagem
O código, sistema de sinais preestabelecido entre emissor e receptor
O canal, meio que veicula a mensagem
A mensagem, aquilo que se pretende comunicar
O referente, o conteúdo da mensagem.
Para Dubois (1988, p.387), “A linguagem é um código que permite a comunicação, um sistema de signos e combinações de sistema de sons, e concretiza-se por meio de atos de fala, que são individuais. Assim, enquanto a língua é um conjunto de potencialidades dos atos da fala, esta (ou discurso) é um ato de concretização da língua”.
2.1 INTERNETÊS
O internetês é uma linguagem surgida no ambiente da Internet, baseada na simplificação informal da escrita, com o objetivo principal de tornar mais ágil e rápida a comunicação.
Para Maria Ivone Domingues (2006) [...] “a linguagem virtual não influencia de forma negativa a aprendizagem da norma culta, porque uma aprendizagem não se dá, necessariamente, em detrimento da outra”. “[...] Um usuário autônomo da linguagem precisa justamente dominar seus diferentes usos para poder transitar-nos diferentes contextos comunicativos”. Para Deonísio (2005), nunca se escreveu tanto como nesses tempos de correspondências eletrônicas. Nas palavras do autor: Os pequenos burgueses tinham internet e celular, mas não dominavam a língua escrita. E por isso criaram a deles. Nada espantoso. Também os habitantes das periferias não dominam a norma culta da língua e criam suas gírias, devidamente circunscritas a cada grupo de usuários.
Já para a educadora Maria Ivone Domingues (2006) [...] a linguagem virtual não influencia de forma negativa a aprendizagem da norma culta, porque uma aprendizagem não se dá, necessariamente, em detrimento da outra. [...] Um usuário autônomo da linguagem precisa justamente dominar seus diferentes usos para poder transitar-nos diferentes contextos comunicativos.
Esta análise pode ser resumida na seguinte questão: O que os usuários da internet pensam sobre o uso do internetês e se há algum prejuízo com o uso dessa linguagem.
3 – METODOLOGIA
O presente artigo está focado nos usuários de sites de relacionamentos, chats, blogs e fotologs. Foi realizada uma pesquisa contendo quatro perguntas aos usuários de comunidades do Orkut, um site de relacionamentos. Durante a pesquisa foi possível notar a comunicação entre os entrevistados, que ao responder, também comentavam as respostas anteriores. Registramos ainda uma pequena discussão entre dois jovens com pensamentos contrários, o primeiro não concordava com o uso das reduções, já o segundo utilizava restritamente. As perguntas ficaram disponíveis por dois dia, 27 de maio a 29 de maio de 2008, e 45 pessoas responderam.
Algumas das palavras do português são utilizadas de forma abreviada sem que se saiba. Como exemplo disse temos “pneu”, no lugar de “pneumático”; “cinema”, no lugar de “cinematógrafo”. “Quilo” vem de “quilograma”, “pornô” vem de “pornográfico”.
Sobre as abreviaturas, a pesquisa realizada nas comunidades do Orkut, possuiu quatro perguntas. A modalidade de pesquisa utilizada no presente artigo é a pesquisa descritiva. Para a coleta de dados foi utilizado o questionário a seguir:
1 – Você simplifica termos ou expressões enquanto se comunica com outras pessoas pela internet?
2 – Que palavras você costuma simplificar com mais freqüência?
3 – Você possui blog ou fotolog? Caso possua, há quanto tempo utiliza?
4 – Você acha que a abreviação de palavras na internet acaba prejudicando a produção de textos como as redações escolares?
4 – RESULTADOS E DISCUSSÕES
Na pesquisa realizada através do questionário com 4 questões, 68,9% dos entrevistados responderam que sim, utilizam termos e expressões simplificados. Já 31,1% dos entrevistados responderam que não. O número de usuários de blogs e fotologs somou 75,6%, contra 24,4% que não utilizam.
Os dados obtidos:
Usuários que utilizam o Internetês:

Usuários que possuem Blog ou Fotolog:

Nota-se no gráfico que a proporção de usuários que utilizam o internetês e que possuem blog ou fotolog é quase a mesma. Blogueiros e Fotologueiros são os que passam mais tempo conectados, variando entre 6 e 10 horas por dia. Costumam utilizar a linguagem abreviada, pois se comunicam com muitas pessoas ao mesmo tempo. Jovens de 12 a 18 anos reduzem suas vidas sociais para permanecerem mais tempo diante do computador.
Uma das comunidades escolhidas do Orkut para a pesquisa foi a Bar do Escritor, um lugar virtual para escritores mostrarem seu trabalho. Durante a coleta dos dados eu pude registrar a utilização de “naum” no lugar de “naum” em um determinado poema. O mesmo para “pq” e “q”. Não tenho a permissão do autor para publicar o poema neste artigo devido aos direitos autorais.
Algumas das simplificações mais comuns:
Beleza abrevia-se blz;
Com abrevia-se c ou c/;
Como torna-se cmo ou cm;
Comigo abrevia-se cmg;
Imagem abrevia-se img;
Firmeza abrevia-se fmz;
Falou abrevia-se flw .”Falow” é uma gíria para “tchau”;
Mais torna-se +;
Menos torna-se -;
Não abrevia-se ñ, n, non, naum, num ou nao;
Para abrevia-se p/, pra, pa ou p;
Também abrevia-se tbm; tb ou “tmb”;
Teclar abrevia-se tc, que é uma gíria para “conversar usando o teclado”;
Quando abrevia-se kdo, qdo, qd ou qnd (“quando” não é usado como kd, pois é uma forma abreviada de cadê);
Quanto abrevia-se kto, qto ou qnt;
Tchau abrevia-se xau, tiaw ou tiau;
Vezes abrevia-se vzes;
Ver abrevia-se v;
Segundo Deonísio (2005): Demos telefones celulares também aos pobres, que podem comprá-los bem baratinhos e em suaves prestações no crediário. Não lhes demos o direito de comprar livros com tamanhas facilidades. Fosse a educação devidamente valorizada, o idioma cibernético teria outra configuração.
Deonísio, apesar de ser contra o uso do internetês, resume em poucas palavras, todas as medidas a serem tomadas para o bom uso do português fora do mundo virtual sem que se elimine totalmente a linguagem da internet. O internetês não deve modificar nossa língua, ele deve ser usado apenas como ferramenta para auxiliar a troca rápida de informações. Na sociedade atual, com a possibilidade de enviarmos notícias para o mundo inteiro e com o uso de poucos caracteres, as abreviaturas tornam-se necessárias. No entanto é preciso investir em educação para que os jovens possam aprender de maneira correta e eficaz a norma culta. É preciso também vigiar os jovens para que não dediquem suas vidas a relacionamentos digitais, seja com amigos, seja de maneira mais afetiva.
5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os usuários da internet utilizam uma linguagem própria nas salas de bate-papo. Reduzem palavras, retiram acentos, pontuações e criam mais um fenômeno de variação lingüística, o internetês, uma espécie de dialeto do mundo digital com palavras e abreviaturas que são verdadeiros códigos entre internautas. Alguns diálogos são até inacessíveis a pessoas que não fazem parte de alguma “tribo”, a exemplo disso temos o Miguxês e o Tiopês.
Foi comprovado com este artigo que o Internetês pode existir nas salas de bate-papo e a norma culta na sala de aula ou onde for necessária.
O internetês é uma espécie de variação da língua entre pessoas que utilizam a internet e sua característica é a agilidade e facilidade de escrita. O grande desafio para os educadores é mostrar ao aluno que ele não pode produzir textos o tempo todo como se estivesse nas salas de bate-papo, ou seja, deve aprender a utilizar a forma adequada aos diversos registros de linguagem, inclusive a norma culta.
6 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COSTA, Renata Ferreira. Revista Eletrônica do Arquivo do Estado. Edição nº 15 Ano 02, outubro de 2006. Disponível em: “http://historica.arquivoestado.sp.gov.br”
MARCONATO, Silvia. A revolução do internetês | Revista Língua Portuguesa. Disponível em: “http://revistalingua.uol.com.br”
NASI, Lara. O conceito de língua: um contraponto entre a Gramática Normativa e a Lingüística. Disponível em: “http://urutagua.uem.br/”
UNRI, Portal. O internetês no tribunal da norma culta: culpado ou inocente? Disponível em: “http:// unir-roo.br/”
WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Disponível em: “http://pt.wikipedia.org/wiki/Internet”
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